Este texto é uma homenagem póstuma ao professor Ricardo Marius Della Lucia.
Uma das mentes mais brilhantes que já passaram pela tecnologia da madeira no Brasil, meu professor e coordenador (indireto) no laboratórioa de tecnologia da madeira da UFV - Universidade Federal de Viçosa .
Daquelas raras pessoas que não ensinavam apenas técnica, mas forma de pensar.
Em uma conversa que ficou gravada em mim, ele disse algo simples, quase despretensioso:
“No dia em que encontrarem uma função econômica real para a casca da madeira, muita gente vai ficar rica.”
Na época, aquilo soou como provocação intelectual.
Hoje, soa como constatação atrasada.
Abaixo coloco o vídeo que copmpleta este artigo, vale apena assistir com calma e tomar nota de tudo!
Durante muitos anos, eu aceitei a mesma explicação que todo mundo aceitava no setor florestal.
A casca da madeira era um resíduo inevitável.
Algo que “sobra” depois que a tora cumpre sua função econômica.
Ela era empilhada, espalhada no campo, usada como cobertura ou simplesmente deixada ali, esperando o tempo resolver.
Na melhor das hipóteses, entrava como detalhe ambiental.
Na pior, como custo operacional silencioso.
A floresta se pagava pela tora.
O resto era ruído.
Esse raciocínio nunca foi imposto.
Ele foi herdado.
Sempre que eu caminhava por pátios florestais, algo me incomodava.
Montanhas inteiras de biomassa.
Volume, energia, carbono, estrutura física — tudo ali — tratado como se não tivesse função econômica relevante.
A pergunta voltava, insistente:
Como pode um volume tão grande de material orgânico não ter papel econômico algum?
Essa pergunta não vinha de livros.
Vinha da observação direta do sistema.
E, com o tempo, ficou claro que o erro não estava na floresta.
Em operações florestais maduras, a casca representa cerca de 10% do volume da tora.
Isso não é exceção, nem ineficiência. É física básica.
Quando colocamos isso em escala industrial, o tamanho do equívoco aparece.
Uma operação típica, com algo próximo de 360 mil metros cúbicos de madeira por ano, gera cerca de 36 mil metros cúbicos de casca.
Convertendo para massa, estamos falando de aproximadamente 18 mil toneladas anuais.
Durante décadas, esse número foi tratado como irrelevante.
Não porque fosse pequeno.
Mas porque nunca foi enquadrado como parte do sistema econômico.
A casca não era vista como ativo.
Era vista como sobra.
O ponto de virada nunca foi tecnológico.
Foi mental.
A pergunta deixou de ser “onde descartar a casca”
e passou a ser “qual é a função econômica correta dessa biomassa”.
A partir daí, a lógica se reordena.
A casca deixa de ser um subproduto incômodo
e passa a ser um ativo energético e ambiental mal enquadrado.
Com engenharia de processo adequada, controle térmico, fechamento de sistema e rastreabilidade, essa casca pode ser convertida em biochar.
Não como discurso ambiental.
Mas como produto técnico, verificável e mensurável.
Em números conservadores:
18 mil toneladas de casca por ano
Aproximadamente 6 mil toneladas de biochar
Algo próximo de 9 mil toneladas de CO₂ equivalente removidas da atmosfera
Até então, tudo isso vinha sendo tratado como nada.
Quando o biochar entra na conta como produto físico, e os créditos de carbono como ativo ambiental de integridade, o impacto financeiro aparece com clareza.
Valores médios atuais:
Biochar: cerca de US$ 180 por tonelada
Crédito de carbono: cerca de US$ 120 por tonelada de CO₂e
Somando os fluxos: US$ 2,16 milhões por ano.
Mais de R$ 11 milhões anuais, sem plantar um hectare a mais,
sem aumentar risco florestal,
sem depender de promessas futuras.
Em um horizonte de dez anos, isso ultrapassa R$ 120 milhões.
Tudo isso sempre esteve ali.
Só não estava sendo contado.
O impacto mais poderoso nunca foi apenas financeiro.
Quando o biochar retorna ao solo, o sistema começa a responder de forma silenciosa:
Menor necessidade de adubação.
Menor perda por lixiviação.
Menor demanda hídrica (irrigações).
Menor mortalidade de mudas.
Menos ataque de formigas.
Menos material combustível no campo.
E, como consequência direta:
Mais madeira no ciclo seguinte.
A floresta deixa de ser apenas um custo a ser financiado
e passa a ser um sistema que se retroalimenta.
Não por ideologia ambiental.
Mas por engenharia aplicada.
O verdadeiro impacto dessa leitura não está em transformar casca em carvão tipo biochar.
Está em abandonar a mentalidade de que eficiência florestal termina na tora.
Durante décadas, o setor aceitou perder dinheiro porque nunca foi treinado para enxergar sistemas completos.
A casca sempre esteve lá.
O valor também.
Faltava alguém assumir a responsabilidade de fazer a conta inteira.
Hoje, quando olho para pilhas de casca acumuladas em pátios industriais, não vejo resíduo.
Vejo capital imobilizado por erro de leitura técnica.
E lembro da frase do professor.
Talvez ele estivesse apenas adiantado demais para o seu tempo.
Como quase todos que realmente enxergam sistemas.
Daniel Camara Barcellos
Engenheiro | Inventor | Estrategista em Bioenergia
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Ignis Bioenergia
Soluções reais. Engenharia que fecha conta.